cartas, zines e demotapes

Quando assisti as entrevistas do projeto “hardcore-mémoria”, desenvolvido pelo Marcelo Fonseca – que pode ser conferido aqui – me fez voltar ao tempo e pensar/lembrar de como o hc foi tecido aqui no Espírito Santo.

O primeiro show que assisti ( já começando ter a idéia de punk-hc) foi quando o hancenyaze tocou pela primeira vez, num Centro Comunitário no bairro Vila Nova, próximo ao meu, juntamente com Harmonia Turbulenta e Dr. mobral. Eu tinha 13 anos (1994). Daí pra frente não parei mais…mas o sentimento de “cena” hc, ficou mais claro pra mim quando os shows passaram a acontecer com mais frequência no bairro Barra do Jucu, no Brega´s bar, no Bar do Roni e logo depois no Guetto. O Guetto era do Fabrício, vocal na época do Gritos de Ódio e Ponvéi. Uma garagem adaptada, com palco e bar. Lembro que antes dessa transformação toda, costumava assistir os ensaios do Gritos de Ódio lá.
Nesses espaços e no antigo circo da UFES bandas locais, de outros estados e países, tocavam com frequência. Nessa época já circulavam alguns zines feitos por pessoas daqui, lembro bem do “Berro”, feito pelo Ramon e Tadeu, além dos que nos era mandado de outros estados. Costumávamos nos corresponder com pessoas de diversos lugares, trocando idéia sobre as nossas “cena local”, zines, bandas, enviando dinheiro malocado dentro da carta para comprar a demotape de bandas de amigos e divulgar em nossa”cena”, assim como os zines também. O primeiro que li foi o Friendship, que o Felipe de BH fazia. Foi ele também quem me deu idéia pela primeira vez sobre straight edge (postura essa que assumi por 11 anos) e o veganismo, postura que adoto até hoje. Nessa época, já com uns 15 anos também fiz, junto com Ana Cláudia e Ana Lúcia um zine, que so teve uma edição, chamado “Dê uma chance”, nome inspirado numa música da extinta banda Rethink, de SP.
Quando as bandas eram gringas, aproveitávamos aqueles amigos que tinham uma condição mais favorável para comprar cds via internet, e gravávamos em k7.
O incrível dessa época é que recebíamos pessoas em nossas casas de outros lugares sem ao menos conhecê-las pessoalmente, bastava apenas trocar algumas cartas e saber que fazia parte do mesmo meio que a gente. Da mesma maneira acontecia quando íamos para outros estados. Costumava pensar se isso acontecia com tanta confiança e segurança em outros meios, fora do nosso. Era encantador, mágico. Algumas pessoas que conheci nesse tempo são minhas amigas até hoje, e muitas delas, como eu (e falarei disso mais embaixo), já não mais se sentem parte do hc, mas a amizade se solidificou de tal maneira que não precisamos mais do hc como elo.
No entanto, não posso deixar de colocar aqui a importância do hc para a minha formação pessoal e política. Pelas letras das bandas refletíamos sobre questões sociais, políticas, levantávamos bandeiras, criticávamos outras. Os zines também, a maioria “pessoal e político”, também foram uma contribuição fundamental para essa tessitura.
E com o espirito de “cena” dentro de cada um de nós, buscavamos aprimorar cada vez mais aquele espaço. No Guetto, aos domingos assistíamos filmes e depois discutíamos sobre as idéias que traziam.  Foi lá a primeira vez que assisti o 1984 e o Germinal.

Num postinho de gasolina próximo a minha casa, no bairro Itaparica, nos encontrávamos e conversávamos informalmente sobre shows, bandas, hc. Lembro uma discussão que fizemos a respeito da violência que estava frequente nos shows, e com sentimento de pertencimento e responsabilidade daquele espaço, pensávamos em como erradicar isso. Além disso, com essa contribuição política, montamos coletivos e eventualmente faziamos algum tipo de manifestação, contra o mc donald´s por exemplo, divulgávamos a situação de Timor Leste que sofria uma ditadura horrível da Indonésia e vibrávamos com os zapatistas no México e Tupac Amaru no Peru.
Com a popularização (processo bem lento, na verdade) da internet em pc´s por volta de 95/96, deu início a substituição progressiva das cartas pelos emails e chat no mirc, especialmente no canal “straight-edge”. Ainda assim, até 2000 eu tinha alguns correspondentes, mas quando me mudei pra BH, fui perdendo o contato a medida que me mudava de casa.
Pelo chat do mirc no canal que citei acima, também fiz grandes amizades que perduram até hoje. Mas a minha relação com o hc nessa época já estava mudando. Em BH, me uni a um grupo que não se sentia satisfeito em viver o hc pelo hc, e como nessa época o hc não supria tanto as nossas expectativas no campo político/crítico, principalmente, agíamos fora dele. Com isso, fizemos o carnaval revolução, evento que reunia pessoas e grupos autônomos de todo país e outros países na época do carnaval, com uma programação que envolvia bandas, debates, palestras, vídeos, oficinas…tudo no espírito do Faça Você Mesmo, que conhecemos e nos apropriamos no punk-hc, e que até hoje norteia nossas ações. Criamos o Gato Negro (biblioteca pública e libertária, com café vegetariano), faziamos intervenções no Dia sem Compras e em outras ocasiões que achávamos pertinentes.
Daí pra frente, mesmo frequentando shows, viajando para verduradas fui perdendo as esperanças do hc voltar a ser aquele que tinha um aspecto de “cena”, que eu convivia no começo. Mas, aqui no ES na mesma época, surgiu o La Revancha, um coletivo que organizava shows, no espírito do FVM e resgatando o melhor do hc, que era o espaço contracultural. Nesses shows rolavam sempre palestras, vídeos, alguns eram verduradas, e sempre que eu podia, vinha de BH para conferir e dar uma força aos meninos. O La Revancha existiu por alguns anos, mas com a sua extinção,voltou o hc pelo hc, e tudo era música.
Quando voltei a morar aqui, em 2005, tentamos montar um coletivo pensando em fazer ações dentro e fora do hc, mas não deu certo.
Com isso meu afastamento foi ficando cada mais maior, o meu envolvimento com grupos, coletivos, fez com que me sentisse completa, realizada, encontrasse a minha identidade, o hc já não conseguia mais fazer isso.
Em 2006 tomei uma decisão muito difícil, deixei de ser sxe. Depois de 11 anos. Como o sxe veio do punk-hc e eu me achava mais “punk” fora do hc, vi que não fazia mais sentido ser sxe. Na época estava um tanto confusa, com tanta coisa acontecendo, com tantos afazeres dentro dos grupos que fazia parte, com tantos projetos, que o sxe começou a se tornar insignificante na mesma medida que o hc. Uma conversa com o Rodrigo Ponce (vocal do Colligere), foi determinante para a minha decisão. Compartilhei com ele minhas angústias, meus conflitos internos, e a dificuldade de digerir o que o hc havia se tornado. Gravadoras/selos extremamente capitalistas, reproduziam o incentivo ao consumo, a relação patronal com as bandas dentro do hc, fora a competição com outros eventos, com outras distros e selos. Uma decepção. Nessa época uma das bandas locais que mais me influenciaram era uma sensação, super popular e havia ganhado outro público que consumia suas músicas, seus cds e seus shows extremamente caros.
Hoje, apesar da nostalgia que sinto quando lembro-me do hc que ajudei a construir aqui, e ter sido fundamental para ser o que sou hoje e fazer o que faço, consigo discernir e até curtir as bandas que hoje são bastante comerciais. Consigo ir num show local e curtir a sua proposta. Até mesmo organizar alguns shows de bandas de fora que temos o prazer de vê-las tocando por aqui. Isso se deve a clareza que tenho hoje sobre o hc e outros meios contraculturais que se prendem, se sustentam pelo comportamentalismo e estética, mesmo que tenham as melhores intenções do mundo, sem deixar de contar com a guetificação desses espaços, tornando-os inférteis.

Dessa maneira, não havia mesmo como ir muito longe como acreditava e almejava. As mesmas letras que fizeram parte da minha formação política me impulsionaram a trilhar um caminho - fora do hc - que desejasse e buscasse nesta mesma  sociedade a transformação social combatendo aquilo que tanto se criticava, e não viver paralelamente a ela, adotando uma postura individualista.

8 de março – dia internacional da mulher trabalhadora

300_0___20_0_0_0_0_0_revista_mujeres_libres Hoje, 8 de março, se comemora internacionalmente a luta das mulheres por terminar com  a opressão que continuamente tem exercido a sociedade patriarcal sobre nós.

No entanto, temos visto como a obsolência e os interesses econômicos e políticos da classe domintante  tem ofuscado e manipulado a origem essencial deste dia, que reace na mulher trabalhadora, estudante e colona, duplamente oprimida e explorada tanto por sua condição de classe como por sua condição de mlher.

Não nos conformemos com um dia fixo no calendário para reinvindicar e manifestar, que oculta a verdadeira origem desta luta e que voltemos a faze-la nossa, no dia a dia. É nossa tarefa como esquerda revolucionária não cair em atitudes de discriminação e exclusão com as companheiras, próprias das relações autoritárias das sociedades tradicionais e burguesas. E mais importante ainda  é derrubar a ilusão de que a paridade tem sido lucrativa, sendo que a opressão continua e não podemos ignora-la.

Artigo escrito pela Frente de Estudantes Libertários (FEL) da Universidade do Chile.
Leia o artigo na íntegra aqui.

Breve história de Zacimba Gaba

Zacimba Gabzacimbaa, princesa africana trazida para o Sapê do Norte no ES, para ser escrava. Quando seu Barão descobriu, a manteve trancafiada na casa grande. Zacimba foi trazida muito nova, mas soube esperar para se livrar dos abusos que sofria, junto com seus irmãos. Envenenamento foi sua arma, durante um longo período alimentou seu Senhor a conta gotas. Quando ele morreu, livrou seus irmãos e foi se aquilombar no meio da mata fechada do norte do estado do ES liderando várias revoltas e muitas vitórias para seu povo africano.


Há cerca de trezentos anos o fazendeiro português José Trancoso desembarcara no Porto de São Mateus, “com uma dúzia de negros de Angola na África, e “uma mocinha de feições finas e olhos esfumaçantes”, sem se dar conta que estava levando para a sua fazenda, aquela que seria uma das precursoras das lutas dos negros contra o regime cruel e desumano, que levou muitos Africanos a perderem sua honra, liberdade, pátria e até mesmo suas vidas, na região de São Mateus no Espírito Santo.
Crescendo em absoluto sofrimento e sobrepujada pelas açoitadas dolorosas, amarrada ao tronco, Zacimba foi uma negra que se diferenciou entre os seus, por se tornar uma libertadora e líder de seu povo Africano…Escravizado. (Texto baseado na historia “Princesa, Escrava e Guerreira” do livro Os Últimos Zumbis de Maciel de Aguiar.)

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Crescendo em absoluto sofrimento e sobrepujada pelas açoitadas dolorosas, amarrada ao tronco, Zacimba foi uma negra que se diferenciou entre os seus, por se tornar uma libertadora e líder de seu povo Africano…Escravizado.

Um breve histórico da luta e vitória das comunidades indígenas contra a gigante Aracruz Celulose no ES


Vinte e sete de agosto de 2007. Data que se tornou um marco histórico na vida e na luta dos povos Tupinikin e Guarani do município de Aracruz, norte do Espírito Santo. Dia em que foi assinada, pelo ministro da justiça Tarso Genro, a tão esperada portaria demarcatória dos 11 mil hectares de terras usurpados pela multinacional Aracruz Celulose nos tempos de ditadura militar. Após 30 anos do início da luta pela recuperação do território, o surgimento de uma nova geração de caciques Tupinikin e Guarani fez com que suas nações se capacitassem para enfrentar a multinacional e recuperar parte de suas terras. O total de terras tomado pela multinacional alcança 40 mil hectares, logo a recuperação não atinge toda área que lhes pertencia. No entanto, somados aos 7 mil hectares já homologados anteriormente, basta para os povos indígenas reviverem nessas terras suas aldeias e suas vidas. Mais três aldeias estão sendo finalizadas na área retomada. São elas as aldeias de Olho d´água, Areal e dos Macacos. Ao todo, o Espírito Santo abriga mais de 2 mil índios/as Tupinikin e Guarani, distribuídos/as em sete aldeias.

A cultura Tupinikin sofreu uma amnésia por força do massacre sofrido com a perda de suas terras para a Aracruz Celulose. Foram obrigados inclusive a negar sua condição indígena para evitar os maus tratos impostos por militares a serviço da empresa. O resgate da tradição indígena por parte dos Tupinikin possibilitou o retorno da luta pelos seus territórios, já que os Guarani jamais abriram mão dos seus costumes.

O reconhecimento dos 18 mil hectares de terras indígenas pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) contribuiu para a retomada do antigo território indígena. Em 2005, um novo laudo antropológico feito pela FUNAI atestando o direito dos indígenas foi divulgado, mas faltava ainda a assinatura da portaria para que as terras fossem devolvidas. Naquela época, a articulação contra a assinatura do (até então) Ministro da Justiça Márcio Tomas Bastos foi grande e contou com apoio da bancada federal capixaba, com restritas exceções.

No mesmo ano, cansados de esperar pela assinatura e publicação da portaria, as comunidades indígenas, com o apoio da Brigada Indígena, Rede Alerta Contra o Deserto Verde, FASE e movimentos sociais, autodemarcaram suas terras e reiniciaram a construção das aldeias.

Entretanto, em janeiro de 2006, alvos de uma violenta ação da Polícia Federal pela reintegração de posse a favor da multinacional, as comunidades indígenas tiveram duas de suas aldeias destruídas com tratores da própria empresa e 13 índios ficaram feridos. Lembro-me como se fosse hoje a indignação do cacique Jaguareté ao dizer “Hoje me senti caçado”, numa assembléia após o ataque da PF. Um helicóptero que sobrevoava a área fazia vôos rasantes, para intimidar a presença dos apoiadores e indígenas, que corriam para dentro do eucaliptal. Um índio ferido ficou perdido. Dois funcionários da FUNAI foram seqüestrados de seus postos de trabalho pela Polícia Federal e levados para a Casa de Hóspedes da Aracruz Celulose (onde curiosamente também estava alojada a PF), e lá foram forçados a assinar a autorização da ação para legitimá-la. Na noite daquele dia, todos nós que presenciamos e fomos vítimas da ação covarde sobre as comunidades indígenas, marchamos rumo a fábrica da multinacional para dizer que a luta não havia chegado ao fim, e que resistiríamos até que seus direitos fossem atendidos.

Em Brasília, a ação foi denunciada como extremamente violenta. Depois disso, os índios foram humilhados por meio de campanhas com outdoors e cartilhas difamatórias feitos por grupos e empresas associadas e lideradas pela Aracruz Celulose. Enfrentaram perseguições em suas próprias terras, foram desrespeitados durante toda a sua luta. Até o processo que já havia sido aprovado pela consultoria jurídica da FUNAI e do próprio Ministério da Justiça foi devolvido à FUNAI para uma nova avaliação. Na ocasião, foi pedida a conciliação entre os interesses econômicos da transnacional e o direito indígena. O pedido foi feito pelo ex-ministro Márcio Thomaz Bastos que com isso atrasou por quase um ano a assinatura da portaria.aracruzoutdoor

Em seus estudos a FUNAI reconhece que os índios capixabas têm direito aos 18 mil hectares no Estado, dos quais apenas foram demarcados 7 mil, por um ato arbitrário do ministro da justiça no governo de FHC. O ministro Tarso Genro, por sua vez, entendeu o mérito da legalidade e decidiu pela homologação da área delimitada. Dessa maneira os Tupinikin e Guarani conseguiram provar que estavam certos: a terra ocupada pela Aracruz Celulose é deles e ao contrário que propala a empresa, há sim índios verdadeiros no norte do Espírito Santo; que os eucaliptos da Aracruz Celulose escondiam uma história secular que a ditadura militar tentara apagar para dela expulsar seus legítimos donos em favor do capital.

Além das comunidades indígenas, comemoram a vitória e a devolução das terras aos seus verdadeiros donos todos/as que participam desta luta. Entre eles/as, os/as quilombolas, que igualmente lutam para recuperar suas terras invadidas pela Aracruz Celulose, no município de São Mateus, norte do estado do ES. A empresa detém 9 mil hecatres de terras já reconhecidas pelo INCRA e pela Fundação Cultural dos Palmares como sendo quilombola. Em julho de 2006 as comunidades quilombolas, juntamente com os mesmos movimentos e entidades que apoiam a causa indígena no estado, retomaram uma área ancestral identificada como um antigo cemitério, sobre a qual havia uma plantação de eucalipto que foi removida. Essa ação foi celebrada com danças e canções.

Fizeram parte direta ou indiretamente desta conquista o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), o Movimento Sem Terra (MST), a Rede Alerta Contra o Deserto Verde, a FASE, A Brigada Indígena e outras entidades. A Brigada (grupo majoritariamente formado por estudantes universitári@s, trabalhador@s e apoiador@s da causa indígena) organizou várias visitas às aldeias, contribuiu na construção e reconstrução de algumas delas, levou mudas nativas para serem plantadas no lugar dos eucaliptos; organizou seminários e produziu informativos e cartilhas sobre a verdadeira história e luta indígena, além de participar nas manifestações na Feira do Verde, evento ambiental que ocorre anualmente em Vitória, para denunciar os abusos e os problemas sociais e ambientais causados por Aracruz Celulose, Vale do Rio Doce, Petrobrás, dentre outras grandes empresas.

Vale ressaltar o apoio, a divulgação e a veiculação de notícias pelo Centro de Mídia Independente, Século Diário, Brasil de Fato, e poucos outros meios de comunicação que buscaram e buscam legitimar as vozes dos movimentos sociais, assim como suas lutas, diferentemente da mídia corporativa capixaba que sempre deixou claro a partir de suas matérias difamatórias, deturpadoras de fatos, que estavam e estão o tempo todo ao lado dos interesses dos grandes empresários.

Atualmente as terras reconquistadas passam por um estudo etnoambiental realizado pela Anaí ( Associação Nacional de Ação Indigenista) que conta com a participação de lideranças das comunidades Tupinikin e Guarani. A expectativa de começar o trabalho nas terras é grande, e as comunidades aguardam desde 2008. O estudo identificará as necessidades e elaborará projetos de sustentabilidade das famílias, buscando amenizar os prejuízos causados pela Aracruz. Além das condições da terra, op estudo avaliará também os impactosm ambientais e culturais causados pela monocultura do eucalipto, as formas de vida no passado, e como isso poderá ser resgatado, gerando sustentabilidade em meio à realidade indígena atual.

Contudo, a vitória indígena contra a gigante Aracruz Celulose é um incentivo a outros movimentos sociais locais comos quilombolas que lutam pelas suas terras invadidas pela mesma empresa, que se encontram ilhados em meio de eucaliptos e obrigados a catar restos do mesmo para fazer carvão destinado ao uso doméstico ou vendas para garantia de subsistência, uma vez que não tem terras para produzir e nem outro meio para sobreviverem. Sofrem também com o agrotóxico lançado pela empresa nas plantações, que causa morte de pessoas e destroi terra, água, solo, fauna e flora. O MPA que, com a expansão da empresa, criando sua 4ª fábrica no estado, luta pela redução da plantação de eucalipto e cana, e ampliação da área plantada com alimentos.A ação da multinacional provoca além do desastre ambiental, o social, que inclui a geração de poucos empregos com baixos salários,e a expulsão do homem do campo. E por fim, os/as trabalhadores/as da própria empresa, doentes por causa dos venenos agrícolas, que se sentem abandonados/as pelos seus sindicatos e não tem seus diretos reconhecidos pela Aracruz Celulose, pois não admite que suas doenças são ocupacionais. Além dos mutilados no trabalho, que realizaram serviços para a empresa e que agora passam necessidades.

Lembranças de outros Carnavais

A essa altura, até o ano passado, estaria organizando ou me preparando para participar do Carnaval Revolução. Foram seis anos de um evento voltado para a convergência de grupos e pessoas de ideais anarquistas e libertários. A partir de atividades diversificadas, com palestras, debates, oficinas, videos, shows, foi possível conhecer e fortalecer laços assim como trocar idéias, informações e conhecimento. Espaço organizado de maneira horizontal, autonomo, autogestionário. Essas vivências, assim como outras que tive enquanto morei em BH, foram muito importante para a minha formação pessoal e política. Infelizmente,nem todxs souberam aproveitar da mesma maneira que eu do Carnaval Revolução. Isso ficou bem claro no debate com os organizadores no final da última edição em SP. E para essas pessoas, digo que perderam tempo, perderam 6 anos da vida delas, por não saberem usufruir do evento de maneira positiva e por não entenderem o espírito do faça vc mesmo.

Antes da existência do Carnaval Revolução na minha vida eheh, apesar de nunca ter gostado de pular carnaval, lembro-me quando criança minha mãe me fantasiar de bailarina e me levar para clubes. No início da adolescência também cheguei a me fantasiar de havaiana e outras fantasias que já não me lembro bem. Mas o que realmente me marcou e ainda faço questão de ver são os blocos de rua. Aqui no meu bairro tem o Bloco do Papel Velho e o Bloco do Saco Roxo. Sempre animados, fantasias de materias reciclados, o velho barril de cachaça e muita gente animada seguindo o humilde trio elétrico. O bairro pára para ver o bloco passar.

Hoje passou o Bloco do Saco Roxo e me veio essas lembranças de outros carnavais. O resgate de algumas tradições são legais, valorizo os blocos e carnavais de rua.

Cineclube Central


Se tem um projeto local que não posso deixar de divulgar aqui é o Cineclube Central.

Organizado por um grupo de amigos, promovem no Teatro Municipal de Vila Velha exibição de vídeos alternativos, todas as quartas-feiras, às 20h. Eu participei de duas exibições, já que o dia e a hora coincidem com as aulas de yoga. A primeira partipação minha foi de cara com a exibição do Surplus que tinha também a proposta de um debate após o filme, mediado pelo Sandro, velho amigo meu, que é antropólogo, e vocalista da banda Mukeka di Rato. Foi muito boa essa experiência e agora sempre no final dos filmes exibidos rola alguma conversa, bate-papo. A segunda e última vez fui pra assistir Paradise Now (filme palestino) e Duas soluções para um problema (filme iraniano). Apesar de eu ter chegado atrasada, não ter visto o filme iraniano, e ter pego já começado o filme palestino, valeu muito a pena assistí-lo. Trata-se de um filme que retrata a vida de pessoas com  histórias de vidas marcadas pelas guerras e dogmatismo religioso, que rege toda a sua vida, principalmente a política do próprio país. De repente, o personagem principal acorda com a predestinação de ser um homem-bomba e o filme desenvolve a maior parte no ritual preparativo para esse grande dia e grande função tratada como honra para aquele povo. Chama atenção o diálogo, os conflitos e contrastes daquela realidade, e a decisão de seguir ou não aquela predestinação. Interessante também é a falta de uma trilha sonora eheh.

Para saber mais sobre esse projeto, acesse o blog aqui.

Comunidade no orkut aqui.

Verônica

Para me preparar psicologicamente para voltar a trabalhar esse ano, fui ao cinema assistir o filme brasileiro que saiu em cartaz: Verônica.

Segue a sinopse: VERÔNICA é professora da rede municipal de ensino há vinte anos e agora, na iminência de se aposentar e passando por sérios problemas pessoais, está exausta e sem a paciência de sempre. Um dia, na escola em que trabalha, ela percebe que ninguém veio buscar Leandro, um aluno de oito anos. Já é tarde da noite quando a professora decide levá-lo em casa. Ao chegar no alto do morro, encontram a polícia e muito tumulto. Traficantes mataram os pais de Leandro e querem matá-lo também. Verônica foge com o menino. Ela procura ajuda e descobre que a policia também está ligada ao assassinato dos pais do menino. Sem poder confiar em ninguém, ela decide esconder o garoto. Assim, Verônica é obrigada a enfrentar policiais e traficantes para sobreviver. E enquanto procura uma maneira de escapar com o menino, redescobre sentimentos que estavam adormecidos na sua vida solitária e difícil.

Jamais pensei que fossem reproduzir tao perfeitamente o cotidiano de uma escola publica de periferia como no filme. Cansada de filmes hollywoodianos com tramas em escolas, nas quais o diretor, o professor ou sei la quem, são os heróis, com uma visão muito romântica e distante de uma escola. Enquanto desenrolava o filme, não sabia se chorava ou se ria, pois me despertou várias sensações e sentimentos. Vale muito a pena conferir.

De volta ao tronco.

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Faz uma semana que voltamos as atividades na escola. Apesar de hj ser o 3o dia com  alunos, sinto-me bastante cansada pela correria que tem sido na escola para dar conta de organizar tudo para esse ano novo.Infelizmente nem tudo depende de mim, mas eu tb nao sou um exemplo de organização, mas tenho buscado dar conta dos meus afazeres mesmo que agora no inicio eu precise chegar mais cedo, sair mais tarde ou trazer alguma coisa pra casa.Agora é repirar fundo e seguir adiante.

Relações de Gênero em Movimentos Libertários

Uma situação que eu presenciei nos dias que eu passei no Rio esse ano, me fez sentir vontade de escrever algo a respeito das relações de gênero ( e não somente de gênero, mas principalmente), em movimentos libertários.

Em 2003, quando entrei numa rede mundial de mídia independente, participei de uma reunião somente de mulheres que também faziam parte da mesma rede, afim de discutir as relações de gênero daquele meio. Havia sido criada tempos antes uma lista brasileira de discussão sobre isso, na qual homens tb poderiam fazer parte, pois se tinha e ainda se defende a idéia que essas relações se constróem a partir das relações sociais, então não era um problema apenas de mulheres. Até porque, pensando numa dimensão maior, homens tb são vítimas dessa sociedade machista, patriarcal, e culturalmente sectária, que estabele papéis a ser desempenhados de acordo com sexo, definindo o gênero a partir disso. Identidade sexual e de gênero é um tema que dá pano pra manga e vou deixar para uma próxima oportunidade pra escrever mais sobre isso, senão fujo do assunto que quero tratar aqui…

Nessa mesma rede, existe uma lista internacional de mulheres que dela fazem parte, para tratar do mesmo assunto, mas nao é permitida a inscrição de homens nela, talvez para deixa-las mais a vontade para falar sobre suas questões, nao sei ao certo.

No entanto, naquele ano que nos reunimos, era a primeira vez que as mulheres daquela lista faziam uma reunião, e pensando nisso, foi pedido aos homens que também faziam parte da lista, que nao participassem, levando em consideração esse primeiro contato. Até porque, muitas nao se conheciam e se era uma barreira se sentir a vontade com elas, quem dirá na presença deles para tratar sobre um assunto tão delicado que é a relação de gênero naquela rede.

Então, cada mulher foi contando sua experência dentro desse aspecto em seu coletivo local. Lembro-me que eu, e mais uma de outro coletivo éramos as únicas que não haviamos sido vítimas de discriminação de gênero. Isso, de acordo com os depoimentos aconteciam de diferentes maneiras. Seja duvidando da capacidade conhecimento tech de mulheres, seja falando mais alto do que elas pra defender alguma idéia e até mesmo interrompendo suas falas, oprimindo-as, tanto em reuniões gerais do coletivo quanto específicas voltadas para  a parte tecnológica da rede.

Fiquei assustada com isso. No coletivo que fazia parte na época, nunca havia sofrido qq discriminação. Logo que entrei fui muito bem recepcionada, sempre pude falar e sempre me senti ouvida. Havia relações de confianca, de coletividade, independente de qq coisa.

Como então era possível acontecer discriminação de gênero numa rede com características libertárias, como a autogestão e autonomia, horizontalidade, onde muitos se assumiam como anarquistas? Sabia também que isso não acontecia apenas naquela rede mas em muitos outros grupos libertários e meios informais libertários, e se serve como consolo existem resgistros que até na época da guerra civil espanhola em 1936 mulheres anarco-feministas eram discriminadas no movimento anarquista.

Então, como entender e analisar esse tipo de situação? Como num meio mais “oxigenado” as relações de gênero são tecidas como numa sociedade machista/patriarcal? Num espaço em que poderíamos  nos sentir mais a vontade, “mais livre”, se reproduz aquilo que se combate fora do mesmo.

A maneira que vejo hoje isso (talvez daqui um tempo mude de idéia, nao sei) é que muitas vezes o comportamento está tão internalizado que nao se percebe. É como se manifestasse de maneira inconsciente. Isso se deve a educação recebida, a cultura hegemonica reproduzida.  Não quero justificar com isso a discriminação de gênero, mas é importante tentar compreender esse fato. Claro que é incoerente ser libertário em um coletivo, nuam manifestação, numa revolução em um movimento, mas nao ser nas suas relações interpessoais, é preciso desconstruir conceitos, construir outros e sermos mais sensíveis a essas questões.

A base do anarquismo é o individuo e sabemos que se não houver transformação individual, a social será um fracasso.  A partir das relações sociais se desenvolve a linguagem (qualquer linguagem), mas a linguagem também pode reproduzir uma cultura como pode trazer novas formas também de sociabilidade.

Dessa maneira, espera-se mais de um movimento/espaço libertário, das pessoas libertárias, do que de uma sociedade em que se luta contra o Estado, contra as desigualdades sociais, economicas, políticas, e se luta pela liberdade, pelos direitos. As transformações sociais acontecem cotidianamente, nao em uma eventualidade. Uma determinada brincadeira ou qualquer linguagem que desfavoreça ou desrespeite, pode soar opressora para quem escuta. E nesse espaço nao da para abrir exceções, porque a pessoa faz ou deixa de fazer num movimento libertário. Claro que nao se pode julgar e desconstruir o conceito que vc tem por ela, por causa disso, mas isso nao significa que tenhamos que ser mais toleráveis.  As conotações machistas, homofóbicas, sexistas DEVEM ser combatidas em qualquer espaço social.

Contudo, especialmente em espaços e entre pessoas libertárias, nao deve existir qualquer tipo de discriminação. Pois estamos juntxs, conquistando espaços tendo em mente a liberdade, sabendo que so seremos livres quando todas as pessoas forem livres tb. E quanto a relações de gênero, principalmente a mulher, penso que temos a todo momento lutar contra qq modelo hegemônico de feminilidade e ideias de feminino e masculino, superando a hierarquia das relações sexuais, ganhando espaço, dando visibilidade, fazendo história dentro e fora dos meios libertários.

“Nós precisamos de espaço e vamos lutar por ele. Que alguns torçam o nariz, que outros falem mal por não entenderem, que façam abaixo assinados e panfletagens, o que quiserem, mas estamos aqui e pronto! Acreditamos no anarquismo, mas só acreditamos nele funcionando no dia-a-dia. Se nós mulheres criamos grupos específicos, é porque estes nasceram dá necessidade, e não por brincadeira.

Nossa luta não se restringe apenas ao feminismo, mas sim a tudo que engloba o anarquismo e, por isso, nossas atividades sempre são em conjunto com outros grupos anarquistas e anarco punks, os quais apoiamos e nos apoiam, sendo a luta e a caminhada lado a lado. Se a possibilidade das mulheres tomarem conta de sua própria luta o assusta, então apavore-se, pois nossa arte, nossa escrita, nossa poesia e nossa forma de lutar vão estar correndo livres velas ruas!” (Texto: E as anarco-feministas, o que são?)

Para refletir…

“Qualquer tentativa de transformação social que desconsidere a necessidade de uma revolução individual efetiva tenderá ao fracasso”.

Li essa frase em algum texto anarquista, mas nao sei ou nao me lembro a autoria, alguem arrisca?

Mas agora, postando-a nesse blog, me remeteu a uma conversa q tive com  um amigo do sul a respeito da farj e do anarquismo social. Ele me disse que jamais faria parte de um grupo como a farj, voltado ao anarquismo social, justamente pq achava que colocava o coletivo acima do individual. Ora, disse a ele que estava completamente enganado. Embora o anarquismo para nós seja e deva ser voltado para o social, nunca deixamos de considerar as mudancas e transformações individuais. A base do anarquismo está no individuo, e isso reflete nao somente a mudancas conceituais, de valores,  interpessoais, mas também corporais, seja de postura, de tato, de relacionamento. Partindo disso, e na tecitura das relações sociais é possivel uma transformação e revolução social.

Depois escrevo mais sobre isso.

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