cartas, zines e demotapes

Quando assisti as entrevistas do projeto “hardcore-mémoria”, desenvolvido pelo Marcelo Fonseca – que pode ser conferido aqui – me fez voltar ao tempo e pensar/lembrar de como o hc foi tecido aqui no Espírito Santo.

O primeiro show que assisti ( já começando ter a idéia de punk-hc) foi quando o hancenyaze tocou pela primeira vez, num Centro Comunitário no bairro Vila Nova, próximo ao meu, juntamente com Harmonia Turbulenta e Dr. mobral. Eu tinha 13 anos (1994). Daí pra frente não parei mais…mas o sentimento de “cena” hc, ficou mais claro pra mim quando os shows passaram a acontecer com mais frequência no bairro Barra do Jucu, no Brega´s bar, no Bar do Roni e logo depois no Guetto. O Guetto era do Fabrício, vocal na época do Gritos de Ódio e Ponvéi. Uma garagem adaptada, com palco e bar. Lembro que antes dessa transformação toda, costumava assistir os ensaios do Gritos de Ódio lá.
Nesses espaços e no antigo circo da UFES bandas locais, de outros estados e países, tocavam com frequência. Nessa época já circulavam alguns zines feitos por pessoas daqui, lembro bem do “Berro”, feito pelo Ramon e Tadeu, além dos que nos era mandado de outros estados. Costumávamos nos corresponder com pessoas de diversos lugares, trocando idéia sobre as nossas “cena local”, zines, bandas, enviando dinheiro malocado dentro da carta para comprar a demotape de bandas de amigos e divulgar em nossa”cena”, assim como os zines também. O primeiro que li foi o Friendship, que o Felipe de BH fazia. Foi ele também quem me deu idéia pela primeira vez sobre straight edge (postura essa que assumi por 11 anos) e o veganismo, postura que adoto até hoje. Nessa época, já com uns 15 anos também fiz, junto com Ana Cláudia e Ana Lúcia um zine, que so teve uma edição, chamado “Dê uma chance”, nome inspirado numa música da extinta banda Rethink, de SP.
Quando as bandas eram gringas, aproveitávamos aqueles amigos que tinham uma condição mais favorável para comprar cds via internet, e gravávamos em k7.
O incrível dessa época é que recebíamos pessoas em nossas casas de outros lugares sem ao menos conhecê-las pessoalmente, bastava apenas trocar algumas cartas e saber que fazia parte do mesmo meio que a gente. Da mesma maneira acontecia quando íamos para outros estados. Costumava pensar se isso acontecia com tanta confiança e segurança em outros meios, fora do nosso. Era encantador, mágico. Algumas pessoas que conheci nesse tempo são minhas amigas até hoje, e muitas delas, como eu (e falarei disso mais embaixo), já não mais se sentem parte do hc, mas a amizade se solidificou de tal maneira que não precisamos mais do hc como elo.
No entanto, não posso deixar de colocar aqui a importância do hc para a minha formação pessoal e política. Pelas letras das bandas refletíamos sobre questões sociais, políticas, levantávamos bandeiras, criticávamos outras. Os zines também, a maioria “pessoal e político”, também foram uma contribuição fundamental para essa tessitura.
E com o espirito de “cena” dentro de cada um de nós, buscavamos aprimorar cada vez mais aquele espaço. No Guetto, aos domingos assistíamos filmes e depois discutíamos sobre as idéias que traziam.  Foi lá a primeira vez que assisti o 1984 e o Germinal.

Num postinho de gasolina próximo a minha casa, no bairro Itaparica, nos encontrávamos e conversávamos informalmente sobre shows, bandas, hc. Lembro uma discussão que fizemos a respeito da violência que estava frequente nos shows, e com sentimento de pertencimento e responsabilidade daquele espaço, pensávamos em como erradicar isso. Além disso, com essa contribuição política, montamos coletivos e eventualmente faziamos algum tipo de manifestação, contra o mc donald´s por exemplo, divulgávamos a situação de Timor Leste que sofria uma ditadura horrível da Indonésia e vibrávamos com os zapatistas no México e Tupac Amaru no Peru.
Com a popularização (processo bem lento, na verdade) da internet em pc´s por volta de 95/96, deu início a substituição progressiva das cartas pelos emails e chat no mirc, especialmente no canal “straight-edge”. Ainda assim, até 2000 eu tinha alguns correspondentes, mas quando me mudei pra BH, fui perdendo o contato a medida que me mudava de casa.
Pelo chat do mirc no canal que citei acima, também fiz grandes amizades que perduram até hoje. Mas a minha relação com o hc nessa época já estava mudando. Em BH, me uni a um grupo que não se sentia satisfeito em viver o hc pelo hc, e como nessa época o hc não supria tanto as nossas expectativas no campo político/crítico, principalmente, agíamos fora dele. Com isso, fizemos o carnaval revolução, evento que reunia pessoas e grupos autônomos de todo país e outros países na época do carnaval, com uma programação que envolvia bandas, debates, palestras, vídeos, oficinas…tudo no espírito do Faça Você Mesmo, que conhecemos e nos apropriamos no punk-hc, e que até hoje norteia nossas ações. Criamos o Gato Negro (biblioteca pública e libertária, com café vegetariano), faziamos intervenções no Dia sem Compras e em outras ocasiões que achávamos pertinentes.
Daí pra frente, mesmo frequentando shows, viajando para verduradas fui perdendo as esperanças do hc voltar a ser aquele que tinha um aspecto de “cena”, que eu convivia no começo. Mas, aqui no ES na mesma época, surgiu o La Revancha, um coletivo que organizava shows, no espírito do FVM e resgatando o melhor do hc, que era o espaço contracultural. Nesses shows rolavam sempre palestras, vídeos, alguns eram verduradas, e sempre que eu podia, vinha de BH para conferir e dar uma força aos meninos. O La Revancha existiu por alguns anos, mas com a sua extinção,voltou o hc pelo hc, e tudo era música.
Quando voltei a morar aqui, em 2005, tentamos montar um coletivo pensando em fazer ações dentro e fora do hc, mas não deu certo.
Com isso meu afastamento foi ficando cada mais maior, o meu envolvimento com grupos, coletivos, fez com que me sentisse completa, realizada, encontrasse a minha identidade, o hc já não conseguia mais fazer isso.
Em 2006 tomei uma decisão muito difícil, deixei de ser sxe. Depois de 11 anos. Como o sxe veio do punk-hc e eu me achava mais “punk” fora do hc, vi que não fazia mais sentido ser sxe. Na época estava um tanto confusa, com tanta coisa acontecendo, com tantos afazeres dentro dos grupos que fazia parte, com tantos projetos, que o sxe começou a se tornar insignificante na mesma medida que o hc. Uma conversa com o Rodrigo Ponce (vocal do Colligere), foi determinante para a minha decisão. Compartilhei com ele minhas angústias, meus conflitos internos, e a dificuldade de digerir o que o hc havia se tornado. Gravadoras/selos extremamente capitalistas, reproduziam o incentivo ao consumo, a relação patronal com as bandas dentro do hc, fora a competição com outros eventos, com outras distros e selos. Uma decepção. Nessa época uma das bandas locais que mais me influenciaram era uma sensação, super popular e havia ganhado outro público que consumia suas músicas, seus cds e seus shows extremamente caros.
Hoje, apesar da nostalgia que sinto quando lembro-me do hc que ajudei a construir aqui, e ter sido fundamental para ser o que sou hoje e fazer o que faço, consigo discernir e até curtir as bandas que hoje são bastante comerciais. Consigo ir num show local e curtir a sua proposta. Até mesmo organizar alguns shows de bandas de fora que temos o prazer de vê-las tocando por aqui. Isso se deve a clareza que tenho hoje sobre o hc e outros meios contraculturais que se prendem, se sustentam pelo comportamentalismo e estética, mesmo que tenham as melhores intenções do mundo, sem deixar de contar com a guetificação desses espaços, tornando-os inférteis.

Dessa maneira, não havia mesmo como ir muito longe como acreditava e almejava. As mesmas letras que fizeram parte da minha formação política me impulsionaram a trilhar um caminho – fora do hc – que desejasse e buscasse nesta mesma  sociedade a transformação social combatendo aquilo que tanto se criticava, e não viver paralelamente a ela, adotando uma postura individualista.

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3 comentários

  1. pseudocontos said,

    Maio 18, 2009 às 3:13 am

    Genial! E eu que me pego há anos há escrever algo do tipo… e nunca consegui… escrever história pessoal é demasiadamente difícil… mas você conseguiu… e fez bem.

    É um misto de nostalgia e impotência. Aquela época não volta.

    Era agradável, confortável; mas ninguém se conforta, quando há tanto a se fazer.

    É o nosso caso.

  2. GUSTAVO said,

    Agosto 20, 2009 às 7:17 pm

    fico feliz de saber que como vc tb fiz acontecer a cena punk/hc aqui no nosso estado,seria muito bom que tudo voltasse como antes………vida longa a todas as contra culturas /culturas e sulturas!! abração
    Gustavo (Guerrilha Punk/Harmonia Turbulenta/Dr.Mobral/RHC/Marvin Nash)

  3. Dezembro 13, 2009 às 3:46 am

    I really enjoyed reading this blogpost, keep up making such exciting stuff.


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