Relações de Gênero em Movimentos Libertários

Uma situação que eu presenciei nos dias que eu passei no Rio esse ano, me fez sentir vontade de escrever algo a respeito das relações de gênero ( e não somente de gênero, mas principalmente), em movimentos libertários.

Em 2003, quando entrei numa rede mundial de mídia independente, participei de uma reunião somente de mulheres que também faziam parte da mesma rede, afim de discutir as relações de gênero daquele meio. Havia sido criada tempos antes uma lista brasileira de discussão sobre isso, na qual homens tb poderiam fazer parte, pois se tinha e ainda se defende a idéia que essas relações se constróem a partir das relações sociais, então não era um problema apenas de mulheres. Até porque, pensando numa dimensão maior, homens tb são vítimas dessa sociedade machista, patriarcal, e culturalmente sectária, que estabele papéis a ser desempenhados de acordo com sexo, definindo o gênero a partir disso. Identidade sexual e de gênero é um tema que dá pano pra manga e vou deixar para uma próxima oportunidade pra escrever mais sobre isso, senão fujo do assunto que quero tratar aqui…

Nessa mesma rede, existe uma lista internacional de mulheres que dela fazem parte, para tratar do mesmo assunto, mas nao é permitida a inscrição de homens nela, talvez para deixa-las mais a vontade para falar sobre suas questões, nao sei ao certo.

No entanto, naquele ano que nos reunimos, era a primeira vez que as mulheres daquela lista faziam uma reunião, e pensando nisso, foi pedido aos homens que também faziam parte da lista, que nao participassem, levando em consideração esse primeiro contato. Até porque, muitas nao se conheciam e se era uma barreira se sentir a vontade com elas, quem dirá na presença deles para tratar sobre um assunto tão delicado que é a relação de gênero naquela rede.

Então, cada mulher foi contando sua experência dentro desse aspecto em seu coletivo local. Lembro-me que eu, e mais uma de outro coletivo éramos as únicas que não haviamos sido vítimas de discriminação de gênero. Isso, de acordo com os depoimentos aconteciam de diferentes maneiras. Seja duvidando da capacidade conhecimento tech de mulheres, seja falando mais alto do que elas pra defender alguma idéia e até mesmo interrompendo suas falas, oprimindo-as, tanto em reuniões gerais do coletivo quanto específicas voltadas para  a parte tecnológica da rede.

Fiquei assustada com isso. No coletivo que fazia parte na época, nunca havia sofrido qq discriminação. Logo que entrei fui muito bem recepcionada, sempre pude falar e sempre me senti ouvida. Havia relações de confianca, de coletividade, independente de qq coisa.

Como então era possível acontecer discriminação de gênero numa rede com características libertárias, como a autogestão e autonomia, horizontalidade, onde muitos se assumiam como anarquistas? Sabia também que isso não acontecia apenas naquela rede mas em muitos outros grupos libertários e meios informais libertários, e se serve como consolo existem resgistros que até na época da guerra civil espanhola em 1936 mulheres anarco-feministas eram discriminadas no movimento anarquista.

Então, como entender e analisar esse tipo de situação? Como num meio mais “oxigenado” as relações de gênero são tecidas como numa sociedade machista/patriarcal? Num espaço em que poderíamos  nos sentir mais a vontade, “mais livre”, se reproduz aquilo que se combate fora do mesmo.

A maneira que vejo hoje isso (talvez daqui um tempo mude de idéia, nao sei) é que muitas vezes o comportamento está tão internalizado que nao se percebe. É como se manifestasse de maneira inconsciente. Isso se deve a educação recebida, a cultura hegemonica reproduzida.  Não quero justificar com isso a discriminação de gênero, mas é importante tentar compreender esse fato. Claro que é incoerente ser libertário em um coletivo, nuam manifestação, numa revolução em um movimento, mas nao ser nas suas relações interpessoais, é preciso desconstruir conceitos, construir outros e sermos mais sensíveis a essas questões.

A base do anarquismo é o individuo e sabemos que se não houver transformação individual, a social será um fracasso.  A partir das relações sociais se desenvolve a linguagem (qualquer linguagem), mas a linguagem também pode reproduzir uma cultura como pode trazer novas formas também de sociabilidade.

Dessa maneira, espera-se mais de um movimento/espaço libertário, das pessoas libertárias, do que de uma sociedade em que se luta contra o Estado, contra as desigualdades sociais, economicas, políticas, e se luta pela liberdade, pelos direitos. As transformações sociais acontecem cotidianamente, nao em uma eventualidade. Uma determinada brincadeira ou qualquer linguagem que desfavoreça ou desrespeite, pode soar opressora para quem escuta. E nesse espaço nao da para abrir exceções, porque a pessoa faz ou deixa de fazer num movimento libertário. Claro que nao se pode julgar e desconstruir o conceito que vc tem por ela, por causa disso, mas isso nao significa que tenhamos que ser mais toleráveis.  As conotações machistas, homofóbicas, sexistas DEVEM ser combatidas em qualquer espaço social.

Contudo, especialmente em espaços e entre pessoas libertárias, nao deve existir qualquer tipo de discriminação. Pois estamos juntxs, conquistando espaços tendo em mente a liberdade, sabendo que so seremos livres quando todas as pessoas forem livres tb. E quanto a relações de gênero, principalmente a mulher, penso que temos a todo momento lutar contra qq modelo hegemônico de feminilidade e ideias de feminino e masculino, superando a hierarquia das relações sexuais, ganhando espaço, dando visibilidade, fazendo história dentro e fora dos meios libertários.

“Nós precisamos de espaço e vamos lutar por ele. Que alguns torçam o nariz, que outros falem mal por não entenderem, que façam abaixo assinados e panfletagens, o que quiserem, mas estamos aqui e pronto! Acreditamos no anarquismo, mas só acreditamos nele funcionando no dia-a-dia. Se nós mulheres criamos grupos específicos, é porque estes nasceram dá necessidade, e não por brincadeira.

Nossa luta não se restringe apenas ao feminismo, mas sim a tudo que engloba o anarquismo e, por isso, nossas atividades sempre são em conjunto com outros grupos anarquistas e anarco punks, os quais apoiamos e nos apoiam, sendo a luta e a caminhada lado a lado. Se a possibilidade das mulheres tomarem conta de sua própria luta o assusta, então apavore-se, pois nossa arte, nossa escrita, nossa poesia e nossa forma de lutar vão estar correndo livres velas ruas!” (Texto: E as anarco-feministas, o que são?)

Para refletir…

“Qualquer tentativa de transformação social que desconsidere a necessidade de uma revolução individual efetiva tenderá ao fracasso”.

Li essa frase em algum texto anarquista, mas nao sei ou nao me lembro a autoria, alguem arrisca?

Mas agora, postando-a nesse blog, me remeteu a uma conversa q tive com  um amigo do sul a respeito da farj e do anarquismo social. Ele me disse que jamais faria parte de um grupo como a farj, voltado ao anarquismo social, justamente pq achava que colocava o coletivo acima do individual. Ora, disse a ele que estava completamente enganado. Embora o anarquismo para nós seja e deva ser voltado para o social, nunca deixamos de considerar as mudancas e transformações individuais. A base do anarquismo está no individuo, e isso reflete nao somente a mudancas conceituais, de valores,  interpessoais, mas também corporais, seja de postura, de tato, de relacionamento. Partindo disso, e na tecitura das relações sociais é possivel uma transformação e revolução social.

Depois escrevo mais sobre isso.

Janeiro tenebroso

Apesar de 2009 mal ter começado, já tenho dor de cabeça devido a problemas. A maioria é em consequência da minha inconsequente decisão de sair de casa no ano passado e todos os problemas que geraram a partir dai, se tornando uma avalanche cada vez maior e insuportável ao ponto de me fazer decidir recuar e voltar ao zero. O meu retorno pra casa no final do ano passado foi a medida mais viável que eu pude tomar para poder consertar toda a merda que desencadeou com a minha saida de casa. Aos poucos algumas coisas começaram a voltar para o lugar, mas janeiro pegou uma parte pesada disso tudo, e dos imprevistos jamais impensaveis que poderiam acontecer a essa altura, depois de tudo q ja rolou no ano passado…mas acredito que a medio prazo tudo se resolva.

As férias, ainda nao senti direito, e espero que consiga salvar os ultimos dias que me resta.

Feliz 2009.

Ano Novo e a esperança de uma vida nova.

Prometo, tentar ao menos, ativar esse blog.